????? - Cirurgia intra-uterina: enfim já é possível
Um sucesso. Assim foi considerada a cirurgia intra-uterina realizada em Campinas/SP, em dezembro do ano passado, pela equipe do Dr. Ricardo Barini, professor de Obstetrícia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. O bebê, Lucas, nasceu no dia 1/3/2004, com 2,2kg, dois meses e meio depois da intervenção.
Anomalia congênita
Grávida do segundo filho, aos 19 anos, Kelly Cristina descobriu, na 19ª semana, através da ultra-sonografia, que ele era portador de mielomenigocele “uma abertura na coluna vertebral, na altura da região lombar", explica o Dr. Barini.
Na 24ª semana, o bebê foi submetido a uma cirurgia delicadíssima. "Abrimos o abdômen da gestante, depois o útero. O feto foi exposto para corrigirmos o problema. Mas ele nada sentiu", assegura o médico. "A anestesia que a mulher recebe passa para seu filho através do cordão umbilical."
Kelly ficou em observação por uma semana no hospital e, depois, em repouso absoluto. "Seu bebê era avaliado periodicamente, e tudo correu muito bem."
Uma intervenção delicada
"Esse ainda não é um procedimento habitual. Na realidade, no Brasil, foram feitas apenas quatro cirurgias do tipo. A primeira, aqui na Unicamp, em 2002, mas, infelizmente, houve um descolamento da placenta e a criança não resistiu. As outras, também com sucesso, aconteceram em São Paulo."
Existem, sim, alguns riscos. "A mulher pode entrar em trabalho de parto logo após a intervenção, perder o útero ou mesmo abortar, como ocorreu com a primeira gestante que passou por esta operação aqui no Brasil", esclarece o Dr. Barini. Outra conseqüência é o parto prematuro, geralmente por volta da 32ª semana. A cirurgia causa uma irritação na parede do útero fazendo com que ele se contraia. "No caso do Lucas esta foi mais uma vitória. Ele nasceu somente na 35ª semana. Não posso afirmar que seja um caso inédito no mundo, mas, certamente, é raro."
A cesariana foi realizada no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM), em Campinas, sem nenhuma complicação. Mãe e bebê passam muito bem e devem receber alta em poucos dias. Lucas, inclusive, já está mamando no peito, mas vai permanecer em observação nas próximas semanas.
Sem a cirurgia, mais riscos
Se Lucas não tivesse sido operado antes de nascer, tudo seria pior. "Ele teria que passar, provavelmente, por duas cirurgias: a primeira para fechar a coluna, e a segunda, para a colocação de uma válvula que retiraria o acúmulo de água do cérebro, evitando a hidrocefalia. Com a cirurgia intra-uterina, evitamos que o defeito na coluna comprometa o cérebro, o que poderia deixar graves seqüelas neurológicas."
Um custo muito alto
Por enquanto, a cirurgia intra-uterina a céu aberto, como é chamado o procedimento, é realizada no Brasil somente para a correção da mielomenigocele. No exterior, já se faz para a correção da hérnia diafragmática e de tumor fetal no cóccix.
Pouco conhecida da população em geral, a mielomenigocele atinge um em cada dois mil fetos. O Ministério da Saúde, por sua vez, não arca com as despesas da cirurgia. "No caso do Lucas, foram cobertas pelo Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher, da Unicamp. Se o governo federal assumisse estes custos, muito mais crianças poderiam ser beneficiadas com a técnica."
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