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????? - Síndrome de inadaptação imunológica atinge de 1% a 2% dos casais
Síndrome de inadaptação imunológica atinge de 1% a 2% dos casais (Folha de S.Paulo - Equilíbrio - 22/7/2004)
KARINA KLINGER
free-lance para a Folha

As tentativas começaram em 2000: Sandra Munhoz Magnani, 35, fez várias fertilizações in vitro, mas não conseguiu engravidar. Hoje, grávida de quatro meses, ela comemora a conquista. "Foi somente na quinta tentativa, depois de passar pelo tratamento, que consegui engravidar. Não sabia que existia esse tipo de problema", conta. O problema a que se refere Sandra atinge de 1% a 2% dos casais e chama-se síndrome de inadaptação imunológica. São casos em que os exames não mostram nenhum tipo de problema de infertilidade, e as mais variadas técnicas de inseminação artificial não ajudam, já que o corpo da mãe não consegue manter o embrião em desenvolvimento no útero.

Para que o embrião se desenvolva corretamente, o organismo da mulher precisa passar por uma adaptação, isto é, ele deve desenvolver uma resposta de proteção.

E o que está por trás dessa falta de adaptação "é um excesso de compatibilidade entre pai e mãe", conforme explica a ginecologista e obstetra Silvia Daher, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

"O organismo feminino tem de reconhecer as diferenças entre o seu material genético e o do pai. Essa resposta é o ponto de equilíbrio necessário para que ocorra a gravidez. Quanto maior a diferença entre os parceiros, maior a chance de engravidar", diz Daher.

Essa semelhança excessiva entre parceiros não tem nada a ver com consanguinidade e ocorre por acaso. Lembra até uma espécie de seleção natural, pois, com outro parceiro, a mulher pode não apresentar esse tipo de rejeição e engravidar naturalmente. Mas até agora nenhum estudo confirma a tese.

"O sistema imunológico da mãe deve reconhecer o antígeno do marido na placenta e produzir os anticorpos que dão início a essa adaptação. Quando existe um excesso de semelhança imunológica entre os parceiros, a gravidez não prossegue, pois esse processo de reconhecimento não acontece", explica o ginecologista e obstetra Ricardo Barini, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em imunologia da reprodução.

Para identificar a síndrome, os médicos recorrem a um exame de sangue específico chamado de prova cruzada, que identifica se a mulher produz ou não anticorpos capazes de reconhecer as células do material genético do seu parceiro.

Glóbulos brancos

"Se o teste da prova cruzada for negativo, recorre-se então às vacinas, que são concentrados de glóbulos brancos do parceiro daquela mulher que deseja engravidar. Na superfície dessas células, é possível encontrar os antígenos que devem ser reconhecidos pelo organismo feminino, ou seja, é uma forma de estimular uma resposta do sistema imunológico da mãe", afirma Barini.

Como o teste não costuma ser barato (custa, em geral, entre R$ 300 e R$ 400), ele só é indicado em casos mais específicos.

A Sociedade Internacional de Imunologia Reprodutiva, por exemplo, indica o exame principalmente para mulheres com menos de 35 anos que já passaram por três abortos espontâneos e para aquelas acima dessa faixa etária que já tiveram pelo menos dois abortos, também espontâneos.

Essa indicação, aliás, não significa que o problema seja mais comum em mulheres mais velhas. "Nós aconselhamos o exame, nesses casos, por uma questão de cautela, já que as mulheres com mais de 35 anos têm maior dificuldade em engravidar", afirma o especialista da Unicamp.

As vacinas, normalmente, são ministradas em duas ou mais doses, em intervalos de quatro semanas. Apesar de não apresentar efeitos colaterais, o tratamento é bastante polêmico.

"Isso acontece porque é impossível saber se a mulher engravidou devido ao tratamento ou por ter superado alguma questão psicológica, já que a gravidez também envolve aspectos emocionais. Além disso, estudos mostraram que mulheres sem tratamento conseguiram engravidar posteriormente", diz Daher.

"Já atendi casos em que a prova cruzada foi negativa, a paciente tomou as vacinas e, após outra avaliação laboratorial, continuou apresentando poucos anticorpos para reconhecer o antígeno, mas, mesmo assim, engravidou. Não há plena certeza da eficácia desse tratamento. Porém, para mim, é uma opção que vale a pena", afirma o endocrinologista Jorge Haddad Filho, coordenador do Programa de Reprodução Assistida da Unifesp.

A advogada Valéria Reis Zugaiar, 38, chegou a ouvir de alguns médicos que o tratamento poderia falhar, mas ainda assim ela resolveu recorrer às vacinas. Após passar por dois abortos, Valéria descobriu que ela e o parceiro sofriam do problema. Hoje, com o filho Diogo, de apenas um mês, no colo, ela comemora. "Fiquei tomando as vacinas por um ano, mas valeu a pena."

Sobre o tratamento, ela disse não ter sentido nenhum tipo de efeito colateral. "Se sentir vontade de engravidar novamente, eu passo por tudo outra vez, sem problemas, já que o resultado compensa", diz.

Em trabalho recente, o ginecologista Ricardo Barini chegou a dados animadores: após usar o método em 250 mulheres que tinham a síndrome, o índice de sucesso, ou confirmação de gravidez, chegou a 82,2%.

"É claro que, com o tratamento, as mulheres se sentem mais seguras, e o conforto poderia explicar a gravidez. Mas, pela minha experiência, acredito que as vacinas tenham efeito significativo", resume o professor.




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