Depois de sofrer dois abortos e perder uma filha cinco dias após o parto, a comerciante Cecília Stafocher, de 32 anos, iniciou uma peregrinação de médico em médico. Determinada a ter um bebê, não aceitava ouvir que ´não tinha problemas´. Muitas consultas depois, estava no consultório do ginecologista e obstetra Ricardo Barini, que a diagnosticou com aborto espontâneo recorrente.
O problema, que atinge de 2% a 5% das mulheres em idade reprodutiva, caracteriza-se por duas ou mais perdas espontâneas e sucessivas das gestações de até 20 semanas. A Organização Mundial da Saúde recomenda que toda mulher o investigue a partir do terceiro aborto.
O problema pode ter várias origens - genética, anatômica, hormonal, infecciosa e imunológica. Quando apresenta o fator imunológico (ou aloimune), o organismo da mulher reconhece o feto como uma espécie de intruso, passando a atacá-lo, em vez de protegê-lo. Em geral, o episódio acontece quando pai e mãe têm excesso de compatibilidade imunológica.
O aborto recorrente de origem imunológica responde por 85% dos casos, segundo Barini, e tem tratamento. Cecília é uma entre as centenas de mulheres que engravidaram depois de passar por ele. Apesar de só ter sossegado quando Valeska, hoje com 10 meses, estava em seu colo, garante que a gravidez foi tranqüila. ´A vontade de ser mãe era maior que o medo.´
O tratamento é feito com uma vacina especial, produzida com glóbulos brancos do pai do bebê. ´Para acontecer uma adaptação, é necessário que o corpo da mulher produza anticorpos que identifiquem proteínas de origem paterna na superfície do embrião´, diz o pesquisador. Em seguida, os anticorpos ´informam´ o corpo de que o que está no útero é gravidez. ´A informação é dada às células chamadas de natural killers, que fazem o patrulhamento do sistema imunológico e que permitem uma resposta positiva.´
Duas doses da vacina devem ser aplicadas antes de a mulher tentar engravidar. Depois disto, é feito um exame de prova cruzada, que verifica se a mulher tem os anticorpos necessários para o sucesso da gestação. Durante a gravidez, ela recebe reforços até o 4º mês. ´Eles são importantes porque a placenta ainda está se formando´, explica Barini.
A arquiteta Daniela de Lima, de 34 anos, teve dois filhos com o empurrão da vacina. Antes, havia perdido três bebês (incluindo gêmeos). Ela ficou especialmente segura porque conheceu diversas mulheres que haviam tido filhos com o tratamento. Hoje, ela é mãe de Miguel, de 2 anos, e Sofia, de 9 meses.
Coordenador de um estudo sobre aborto recorrente publicada na "Revista Paulista de Medicina", Barini diz que, de 246 casos estudados e tratados entre 1994 e 2003, 170 evoluíram para o parto. E, destas 170 mulheres, 77,7% tinham como prognóstico o fator aloimune.
´As mulheres com idade igual ou acima de 40 anos e com mais fatores além do aloimune respondiam de maneira mais negativa ao tratamento´, explica.
O QUE É...
... o ABORTO RECORRENTE? Problema pode ter diversas causas O aborto de repetição se caracteriza pela perda de duas ou mais gestações sucessivas de até 20 semanas. Pode ser relacionado com alterações genéticas, anatômicas, hormonais, infecciosas, imunológicas e outras. Ocorre em 2% a 5% das mulheres em idade reprodutiva. COMO É...
... o TRATAMENTO? Mais eficiente para alterações imunológicas Uma vacina especial, feita com glóbulos brancos do pai do bebê, faz o corpo da mulher produzir anticorpos. Estes, por sua vez, informam um certo tipo de célula que a mulher tem uma gravidez e não um intruso no organismo. Duas doses são aplicadas antes da gravidez.
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