Foram quase quatro anos e três tentativas frustadas de ter um filho. Por três vezes, a despachante Valéria Reis Paiosin, de 30 anos, engravidou. E em todas perdeu o bebê antes de chegar ao terceiro mês de gestação. Mas isso é passado. Hoje, Valéria e o marido, José Fernando Paiosin, comemoram a chegada do filho Fernando, nascido no último dia 11. O “milagre” é resultado do tratamento feito com a chamada “vacina do marido”, um método desenvolvido em Campinas pelo ginecologista e obstetra do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ricardo Barini, que trabalha o aspecto imunológico do organismo da mulher.
Segundo o médico, a rejeição do sistema imunológico da mãe devido às características paternas existentes no embrião é a principal causa dos abortos espontâneos, comuns nos três primeiros meses de gravidez e que atingem de 2% a 5% das mulheres em idade fértil. Dentre essas alterações imunológicas, o fator aloimune — dificuldade do organismo feminino em se adaptar à gravidez — é a principal causa dos abortos recorrentes, responsável por 85% dos casos.
“Metade do bebê é da mãe, mas a outra metade é do pai e o organismo pode ter problemas com isso”, explica Barini. Neste caso, o sistema imunológico da mulher produz uma resposta agressora ao invés de protetora em relação ao embrião. Esta rejeição, no entanto, pode ser minimizada com a vacina do marido, método que ensina o organismo da mãe a se adaptar às proteínas de origem paterna e reconhecer o filho.
A pesquisa, desenvolvida no Ambulatório de Perdas Gestacionais do Caism de 1993 a 2005, avaliou 250 pacientes. Todas as mulheres tinham entre 30 e 34 anos e perderam espontaneamente seus bebês três ou mais vezes consecutivas. Além da rejeição ao embrião pelas características paternas, foram registradas outras causas menos freqüentes, como problemas hormonais e anatômicos (leia texto nesta página). “Nos casos em que havia associação com outros fatores, os resultados não foram tão bons. Mas quando o problema se resumia à falha imunológica, o índice de gravidez foi de 82%”, comemora Barini. O estudo, o primeiro brasileiro a mapear as causas de abortos de repetição, foi publicado na última edição de 2006 do São Paulo Medical Journal, revista mantida pela Associação Paulista de Medicina (APM).
SEM DIVÓRCIO
Segundo Barini, o problema não pode ser encarado como uma doença. Em muitos casos, uma mulher que sofre diversos abortos espontâneos com um parceiro pode engravidar facilmente com outro, e vice-versa. Hoje, graças ao estudo, tratar o problema ficou mais simples. Não é preciso “mudar de parceiro”, basta tomar a “vacina do marido”, antes de uma nova tentativa de concepção.
Na vacina, linfócitos do homem (um tipo de célula de defesa) são injetados no corpo da mulher para que o organismo materno reconheça o pai da criança da próxima vez que engravidar. Em geral, são necessárias duas aplicações, separadas por quatro semanas. Depois, é feito um teste para ver se a imunização funcionou. A partir de então, a mulher já deve ter sucesso em uma nova gravidez. Quando as duas doses são insuficientes, são feitas aplicações de reforço vacinal.
AS CAUSAS - O que leva ao aborto de repetição · Imunológicas: Podem ser pelos fatores aloimune (dificuldade do organismo feminino em se adaptar à gravidez) ou autoimune (excesso de anticorpos que se traduzem pela agressão às próprias células)
· Endócrinas ou hormonais: Produção insuficiente de progesterona
· Genéticas: Translocação no cariótipo de um dos parceiros, inversão cromossômica; cromossomos em anel
· Infecciosas: Por infecções genitais
· Hematológicas: Distúrbios de coagulação, gerando trombose
· Ambientais: Radiação, gases anestésicos, ingestão excessiva de café, álcool ou tabagismo
· Desconhecidas: Em 20% dos casos de aborto recorrente, não é possível determinar uma causa específica.
QUANTO MAIS OS PAIS SE PARECEM, MAIOR É A CHANCE DE PROBLEMAS
Segundo o ginecologista e obstetra Ricardo Barini, curiosamente a rejeição ao embrião nos casos de aborto recorrente não ocorre quando o pai é imunologicamente muito diferente da mãe, mas sim quando ele é muito parecido. “Quando você transplanta um órgão, ele precisa ser o mais semelhante possível ao organismo receptor para não haver rejeição. Na gravidez, é exatamente o contrário”, diz Barini. “Se o pai é parecido com a mãe, o corpo não reconhece aquilo como uma gravidez. Ele acha que é alguma parte do próprio organismo que está com defeito e o rejeita.”
VÁRIOS FATORES INFLUENCIARAM OS CASOS RECORRENTES
O estudo da Unicamp aponta que, muitas vezes, dois ou mais fatores influem para a ocorrência dos abortos espontâneos recorrentes. A segunda maior causa também é de origem imunológica, mas relacionada ao fator autoimune. Presente em cerca de 30% dos casos, ela se caracteriza pelo excesso de algum anticorpo que provoca reações de auto-agressão imunológica, em que o organismo ao invés de atacar suas próprias células, volta-se contra a gravidez. Outro elemento que concorre para as perdas espontâneas e recorrentes é o distúrbio hormonal, que ocorre em torno de 25% dos casos. “Muitas mulheres que engravidam não conseguem produzir progesterona em quantidade adequada, o que pode dificultar a sustentação do feto”, explica o médico Ricardo Barini, coordenador da pesquisa.
Além dessas, existem ainda os problemas anatômicos, como as malformações uterinas, presentes em 25% das mulheres que passaram por tratamento no Caism entre 1993 e 2005. Outras causas apresentam índices muito pequenos. O índice total, superior a 100%, deve-se à combinação dos diversos fatores.
Com relação aos resultados, a pesquisa mostra que eles foram mais efetivos nas mulheres que apresentaram exclusivamente o fator aloimune (82% de sucesso). Nas pacientes que apresentaram o fator aloimune associado com problemas de ordem hormonal, o índice de sucesso do tratamento caiu para algo em torno de 50%. Segundo Barini, o pior resultado obtido foi em relação às mulheres que apresentaram conjuntamente os fatores aloimune e autoimune. “Nesses casos, menos da metade das pacientes conseguiu levar a gravidez até o fim depois da terapêutica.”
DIAGNÓSTICO
Para o especialista, o estudo é importante primeiro por chamar a atenção da sociedade e da própria classe médica para os problemas que o fator aloimune pode causar ao embrião. E, segundo, por destacar a necessidade do diagnóstico ser feito o mais breve possível. “Essa talvez seja a principal dificuldade a ser superada. Nas clínicas privadas, após o segundo aborto espontâneo, os médicos já tratam de investigar a participação dos fatores imunológicos. No serviço público, o procedimento é mais complicado, pois não existe pagamento previsto por parte do Sistema Único de Saúde (SUS)”, diz Barini. No caso do Caism, por exemplo, é o próprio serviço quem banca os custos, que são altos. “Em virtude da nossa limitação de recursos, só podemos admitir duas novas pacientes por semana. A lista de espera é de no mínimo seis meses”, lamenta.
Mais informações sobre abortos de repetição podem ser obtidas no site pessoal do ginecologista e obstetra, no endereço www.barini.med.br, ou no Caism, pelo telefone (19) 3521.9331.
SAIBA MAIS
Aborto de repetição, ou recorrente, é quando a mulher apresenta três ou mais perdas gestacionais antes de 20 semanas de feto ou pesando menos de 500 gramas. Uma ou duas perdas nas mesmas condições são classificadas como aborto espontâneo.
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