????? - ‘Vacina do marido’ é a nova arma para aborto espontâneo
Diário da Região - S.J.Rio Preto
Cecília Dionizio
Nada é tão triste quanto desejar, ansiosamente, por um filho, e ao ter a notícia da gestação tão desejada, passado algum tempo, ver o sonho se desmanchar por conta de um aborto espontâneo. Quem viveu essa situação foi a arquiteta Daniela Morelli de Lima, que enfrentou dois abortos espontâneos consecutivos e depois de já não ter muita segurança se daria certo, conseguiu engravidar com a ajuda de uma nova vacina. Conhecida como “vacina do marido”, ela tem sido aplicada pelo ginecologista Ricardo Barini, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ela recebe este ‘apelido’ por ser preparada com os linfócitos do marido. “Isso é assim realizado para que a mulher consiga produzir o anticorpo especificamente para engravidar de seu parceiro.
A vacina já foi aplicada em mais de 20 mil mulheres ao redor do mundo. No Brasil, contabiliza cerca de 2 mil mulheres vacinadas. E tem demonstrado ser eficiente em seu objetivo, que é o de manter a gestação até o final. Barini explica que a vacina foi desenvolvida a partir da observação de que indivíduos que recebiam transplantes de rim, na década de 60, e haviam recebido transfusões de sangue, aceitavam melhor o rim transplantado que os indivíduos que não haviam recebido transfusões. Barini diz que o fato da gravidez ser para a mulher uma espécie de transplante temporário, imaginamos que a transfusão de sangue poderia melhorar a aceitação do transplante "fetal".
De acordo com o ginecologista, a vacina estimula produção de um anticorpo chamado bloqueador. Este anticorpo regula o sistema imune da mulher e o prepara para a aceitação da gravidez, uma vez que ela não tenha conseguido produzir esta resposta apenas pela gravidez, como é de se esperar. Este anticorpo se liga à célula NK (assassina natural e reguladora do nosso organismo) e passa a informação de que o que está se desenvolvendo dentro do útero é uma gravidez e não uma doença ou agressão ao corpo da mulher.
ABORTOS REPETIDOS As principais vítimas de abortos espontâneos de repetição são as mulheres que compartilham dos mesmos antígenos HLA do parceiro. Este é o sistema sangüíneo que regula a aceitação de transplantes. Portanto, quanto mais parecido (imunologicamente) for o casal, maiores são as chances do aborto recorrente. A estimativa é que 0,5% dos casais tenham mais que três abortos consecutivos, o que configura o quadro. Cerca de 85% das mulheres que receberam a vacina já estão com seus bebês em casa. Nos demais 15%, Barini explica que parte teve identificadas alterações genéticas nos fetos. E na outra metade haviam alterações imunológicas mais graves, que necessitaram de um tratamento especial.
CONTRA-INDICAÇÃO Contudo, não são todas as pessoas que podem fazer uso da vacina. Há restrições, por exemplo, quando o parceiro é portador de uma doença transmissível pelo sangue (hepatite B ou C), HIV e outras semelhantes. “A vacina não deve ser indicada quando a mulher já tem a resposta imune para a gravidez, o que é feito pela pesquisa no teste de Crossmatch (ou prova cruzada), uma vez que a resposta positiva indica que ela não precisa ser tratada,” diz o ginecologista.
São realizadas em torno de duas imunizações e refeito o teste de Crossmatch. Se ele estiver positivo, a paciente está apta a engravidar. Se negativo, ela receberá mais três doses até que refaça o teste de Crossmatch. Se ainda assim estiver negativo, ela irá receber uma vacina do marido e de um doador não aparentado para que esse doador drible o sistema imune da mulher e que consiga estimular a mulher a produzir o anticorpo para o marido.
“Durante a gravidez ela deve receber quatro doses de reforço para conseguir manter a produção dos anticorpos elevada e facilitar a resposta na gravidez”, explica o médico. Cada vacina custa em torno de R$ 700, e ainda não há previsão de que venha a ser produzida ou paga pelo Sistema Único de Saúde (SUS), diz o ginecologista e obstetra Ricardo Barini, do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism), da Unicamp.
DEPOIMENTOS Mulheres que tiveram duas ou mais perdas gestacionais ou falhas em programas de reprodução assistida podem apresentar alterações imunológicas, hoje tratadas com a ‘vacina do marido’. Foi o que fez a arquiteta Daniela de Lima, de 34 anos, que comemora o sucesso do tratamento com o marido e os filhos Miguel, 2 anos, e Sofia, 1 ano. Antes da tentativa da vacina, ela já havia perdido três bebês (incluindo gêmeos). Daniela sentiu-se especialmente segura porque conheceu diversas mulheres que haviam tido filhos com o tratamento depois de várias tentativas.
Depois de sofrer dois abortos e perder uma filha cinco dias após o parto, a comerciante Cecília Stafocher, de 32 anos, iniciou uma peregrinação em tudo quanto é médico. Mas só quando chegou ao serviço dirigido pelo médico Ricardo Barini, em Campinas, foi que se beneficiou da imunologia da reprodução. O obstetra Ricardo Barini é um dos pioneiros no Brasil, nesta subespecialidade e graças a isto Cecília curtirá, pelo segundo ano, o dia das mães com Valeska, hoje com 1 ano e um mês de vida. “A vontade de ser mãe era muito grande”, ela lembra, hoje realizada.
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