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????? - Núcleo estudará causas que levam ao aborto de repetição
Cecília Dionizio, do Diário da Região (S.José Rio Preto-SP)

O aborto espontâneo ocorre muito mais do que se supõe. No entanto, como não é alardeado tanto quando é provocado, poucas são as vezes que se ouve falar a respeito. É uma ocorrência que causa profundos traumas a uma mulher que deseja engravidar e não consegue. O problema, segundo o ginecologista Ricardo Barini, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estudioso do assunto, chega a afetar cerca de 5% dos casais em idade fértil. Um dado preocupante quando se relaciona o índice a outras formas de aborto. Até porque, ao sofrer um aborto dessa natureza, a mulher tende a criar alguns traumas, pois em geral, eles se repetem a cada nova tentativa de engravidar, sem que se consiga identificar o motivo. Daí porque o médico se mobilizou no sentido de criar uma rede nacional para promover o tratamento para o aborto de repetição. De acordo com um estudo concluído há dois anos, com 230 mulheres, na faixa etária entre 18 e 45 anos, em São Paulo, o aborto de repetição é um mistério para a medicina e a única certeza é que as citocinas são substâncias envolvidas na resposta imunológica e podem estar relacionadas.

O estudo conduzido por uma equipe do Departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), do qual fez parte a ginecologista Rosiane Matar, foi realizado com as mulheres que procuravam o ambulatório de aborto habitual ou a clínica obstétrica do Hospital escola da Unifesp. De acordo com a ginecologista Rosiane, em cerca de 50 a 60% dos casos de aborto habitual encontram-se uma ou mais anomalias que podem estar relacionadas ao aborto de repetição. Todavia, nos demais casos as causas permanecem desconhecidas, mesmo com todo o conhecimento que a Medicina tem hoje. O que se sabe é que as causas mais comuns são de origem cromossômica, imunológica, endócrina, trombofílica, anatômica, infecciosa, ambiental e psicológica. No entanto, os profissionais integrantes do estudo reconhecem que o sistema imunológico é atualmente o fator mais estudado e pesquisado na atualidade em relação ao aborto de repetição. “Neste aspecto estão envolvidos os fenômenos auto-imunes”, diz.

Há situações em que existe a produção, por parte do sistema imunológico materno, de auto-anticorpos que vão alterar o leito placentário e com isso determinar a perda gestacional, e os fenômenos aloimunológicos, em que estão implicados distúrbios no reconhecimento dos antígenos feto-paternos e/ou no desencadeamento de resposta imunológica modulada e protetora. Rosiane observa em seu estudo que sempre foi um enigma intrigante para a medicina o fato de, inicialmente, a mãe aceitar o desenvolvimento do feto dentro de seu corpo, uma vez que isto representa um paradoxo
imunológico. Isto porque o sistema imunológico tem a função de reconhecer como estranho e elaborar mecanismos para rejeitar todo enxerto de órgãos de doadores que não sejam geneticamente idênticos ao receptor. Ou seja, como o feto possui antígenos de origem paterna, sendo considerado um aloenxerto que deveria ser rejeitado, representa exceção a esta regra.

A médica esclarece que no início a não-rejeição do feto sempre foi atribuída à ausência de resposta imunológica materna, mas inúmeras investigações demonstraram que na gravidez existe o desenvolvimento de resposta imunológica com a participação de fatores humorais e celulares, o que demanda mais uma série de estudos para se chegar a soluções. Daí porque a importância do lançamento do Núcleo de Imunologia da Reprodução Humana (NIDARH), para cuidar especificamente deste assunto. De acordo com o coordenador do projeto, Ricardo Barini, com a criação da rede nacional de especialistas no assunto, a esperança é que se torne mais fácil a descoberta de outros mecanismos ligados a este problema, além de tratar eficazmente o que já se conhece. “Sabemos que a vacina muda o comportamento da resposta da mulher para a gravidez. Queremos saber como essa resposta se expressa e rastrear outras alterações não ligadas ao aspecto imunológico", diz Barini.

SUPORTE NACIONAL DE DADOS
O ginecologista e obstetra Ricardo Barini, coordenador do Ambulatório de Perdas Gestacionais Recorrentes da Divisão de Reprodução Humana da Unicamp, reuniu um grupo de médicos de vários Estados para montar uma rede nacional para combater o problema do aborto de repetição. O NIDARH foi lançado durante o 52º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, de 13 a 17 de novembro, em Fortaleza. Segundo Barini, a finalidade é ampliar o conhecimento sobre os mecanismos envolvidos no aborto espontâneo e repetido e aprimorar o tratamento, criar uma base nacional de dados e estimular o debate sobre os resultados com as vacinas que combatem falhas imunológicas.

Participam especialistas no tratamento de abortos de repetição que atuam nas cidades de Campinas, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Salvador, Recife, Fortaleza e Florianópolis. "Achamos o momento apropriado para criar um espaço de difusão de informações, troca de idéias e que possibilite atividades conjuntas", explica Barini, que introduziu em 1997, na Unicamp, o tratamento do aborto de repetição por meio de vacinas. Além disso, um estudo clínico sobre o aborto recorrente já está programado para ser iniciado em várias capitais brasileiras no primeiro semestre de 2008, quando os especialistas reunidos no NIDARH irão divulgar os trabalhos já consolidados dos grupos que atuam em várias regiões do país.

No site do Núcleo, em construção, haverá um banco nacional de dados sobre imunologia da reprodução. "Os ginecologistas e obstetras de qualquer estado brasileiro vão poder tirar dúvidas sobre diagnóstico, tratamento e encaminhamento de pacientes", informa Barini, que é também professor livre docente da Unicamp.

SAIBA MAIS:
- O Núcleo (NIDARH) pretende realizar estudos científicos em todo o Brasil, na tentativa de auxiliar casais com dificuldade em ter filhos, seja por aborto de repetição ou falhas em ciclos de reprodução assistida.

- A Imunologia da Reprodução tem por objetivo estudar os eventos imunológicos relacionados à nidação, que é o mecanismo pelo qual o embrião adere ao útero e a gravidez tem prosseguimento.

- De acordo com estudos, há relação entre a gestação normal, o abortamento de repetição e a infertilidade. A placenta e o embrião expressam informações paternas (50%) e maternas (50%), os antígenos de superfície (HLA). A gestante normal produz anticorpos bloqueadores, diminuindo a ação das células assassinas naturais - Natural Killer (NK). Essa resposta é conhecida como Th2.

- Em gestantes com abortamento de repetição ou falhas em ciclos de reprodução assistida, a resposta imunológica é Th1, com aumento da atividade das células NK.

- A imunoterapia com linfócitos tem por meta produzir os anticorpos bloqueadores, transformando a resposta imunológica da gestação inadequada (Th1) em normal (Th2). A imunoterapia com linfócitos é realizada a partir do sangue do marido ou doador e deve ser aplicada após 6 horas da sua elaboração.

- A chance do tratamento dar certo é de até 84% dos casais com perdas gestacionais repetidas e 70% daqueles com duas falhas em ciclos de reprodução assistida podem se beneficiar.

- Essa área teve grandes avanços a partir dos estudos do dr. Alan Beer, da Chicago Medical School, EUA, em 1987.

- Atualmente, a imunoterapia com linfócitos é utilizada em diversos países como Inglaterra, México, Chile, Argentina, Dinamarca, China, Índia, Austrália, Israel e Japão.

Fonte: RICARDO BARINI, ginecologista

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