Na mesma proporção em que cresce o número de casais que optam por não ter filhos, evolui o de pessoas cujo objetivo é estabelecer uma família com um ou mais descendentes. Embora, para estes últimos, o processo de gestação possa parecer uma coisa simples e descomplicada, sempre existem alguns empecilhos. Como não conseguem levar adiante seus projetos, a tempo e a hora, é grande o número de fecundações que terminam em um abortamento espontâneo, antes que se completem 20 semanas de gestação, ou seja, a metade do tempo de uma gravidez.
Há mulheres que apresentam aborto espontâneo recorrente, que ocorre pelo menos duas ou três vezes em seguida na mesma paciente. “Diferencia-se a expressão ‘duas ou três vezes’ porque se pegamos mulheres com mais de 35 anos, consideramos que elas precisam mesmo ser tratadas”, expõe o ginecologista e obstetra Ricardo Barini, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Núcleo de Imunologia da Reprodução Humana (NIDARH).
A causa mais freqüente dos abortamentos recorrentes é imunológica, ou seja, é uma dificuldade de adaptação do sistema de defesa da mulher à presença de antígenos que são do marido. “Pode-se entender antígenos como se fossem proteínas. Na superfície das células do bebê existem proteínas de origem paterna. As que se originam do pai são estranhas para a mulher e, habitualmente, o que deveria ocorrer é que ela expulsaria o bebê se não houvesse uma adaptação para isso. Algumas mulheres que não conseguem desenvolver essa adaptação embriológica acabam tendo uma perda recorrente por esse motivo imunológico”, explica o obstetra.
A dificuldade para engravidar por causa imunológica, segundo ele, ainda não está completamente estabelecida. As mulheres sem condições de engravidar, mesmo com os tratamentos de fertilização, quando recebem um tratamento imunológico adequado conseguem dobrar essas condições.
VACINA O tratamento mais habitual para as mulheres que têm abortamento devido à causa imunológica é feito por meio de uma vacina produzida com os glóbulos brancos do marido. “Batizamos ela como ‘vacina do marido’. É uma vacina que cria na mulher a resposta imunológica necessária para ela ter e proteger o bebê”, indica o obstetra. Ela é ministrada antes da mulher tentar engravidar. “Fazemos um teste denominado crossmatch (prova cruzada). Através desse teste, identificamos se ela já tem ou não a resposta de adaptação para gravidez”, explica. Quando o resultado do teste é negativo, significa que a mulher precisa ser tratada com as vacinas. “Para cada vacina produzida são retirados 80 ml de sangue do marido. Ele passa por um processamento em que são separadas apenas as células brancas.”
A paciente recebe pelo menos duas doses da vacina no braço. Posteriormente, tem que repetir o teste do crossmatch para verificar se ela já tem a resposta de adaptação que se busca por meio dessa abordagem terapêutica. O resultado do tratamento, que demora em média dois a três meses, deve ser positivo. Em geral, 85% das mulheres após essa terapêutica estão liberadas para tentar engravidar novamente”, informa Barini.
O obstetra relata que é comum atender pacientes que já fizeram mais do que cinco ou seis fertilizações in vitro e não foi realizado nenhum diagnóstico da parte imunológica. “Esse tratamento, comparado a outros que existem dentro da área da fertilidade, não é caro e está disponível em vários locais do Brasil”, finaliza.
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