????? - Aborto de repetição pode e deve ser tratado
Site Minha Vida/UOL
Dos casais em idade fértil, 2% a 5% sofrem abortos de repetição, que se caracteriza pela perda recorrente da gestação antes de 20 semanas. Uma, duas, três ou mais vezes. A situação aflige muitas mulheres com dificuldade para engravidar e levar a gestação até o final, com o nascimento do bebê.
POR QUE ISSO ACONTECE? Em muitas mulheres que experimentam falhas de implantação do feto, o sistema imunológico produz uma resposta do tipo agressora e não protetora em relação à gravidez. Para entender como funciona esse mecanismo, é preciso conhecer a função das NK, sigla em inglês para natural killer - as células assassinas naturais . São elas que verificam se tudo está correto do ponto de vista imunológico e liquidam as células estranhas ao nosso organismo. Em algumas mulheres, cada nova tentativa de engravidar causa uma espécie de irritação do sistema imunológico, que fica hiperativo. Então, as NKs liberam substâncias que promovem a morte do embrião.
O problema começa na união de casais que formam um par muito parecido do ponto de vista imunológico e produzem embriões que são interpretados pelo organismo da mulher como objetos estranhos. Por não conseguirem desenvolver a resposta normal de adaptação imunológica, estes embriões são eliminados e, a cada nova gravidez, estas alterações são agravadas. Isto ocorre mesmo quando belos embriões são produzidos nos tubos de ensaio em fertilizações in vitro.
Na gravidez que evolui normalmente, a mulher entra em contato com informações de origem paterna. Só que, ao invés de produzir uma resposta de agressão, ela desenvolve uma adaptação fisiológica que protege o bebê. Qual é a chave nesta história? Uma fração molecular especial chamada HLA-G. É essa molécula que entra em contato com o sistema imune materno e dá a informação: Olha, isso que está crescendo aqui dentro é uma gravidez, não é uma doença, não é uma célula cancerígena.
Hoje sabemos que esse problema imunológico pode ser tratado com vacinas. Verificamos, por uma série de exames, se a mulher produz anticorpos contra as células do marido. Se não estiverem positivos, o tratamento é feito com a coleta de sangue do marido, fracioná-lo, separando os leucócitos (células brancas) das hemácias (células vermelhas).
As células brancas são então purificadas e injetadas na mulher por via intradérmica. Fazemos duas sessões dessa imunização e confirmamos a resposta ao tratamento por meio de novos exames. O grupo que coordeno foi pioneiro, no Brasil, na introdução de vacinas que corrigem o fator imunológico, com índice de sucesso em 84% dos casais.
Ricardo Barini é professor livre docente da Disciplina de Obstetrícia do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP
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