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O médico que foi contra a corrente
set.2008

 

Jornal da Unicamp

O médico que foi contra a corrente
Jornal da Unicamp

Há pouco mais de um ano, um jornal de circulação nacional colheu a opinião de cerca de dez especialistas sobre o caso de Marcela de Jesus Ferreira, que iria viver por 18 meses com diagnóstico de anencefalia. O fato causou comoção e foi transformado em bandeira do movimento contrário ao pedido de direito de aborto para grávidas de fetos com esta malformação, em trâmite no Supremo Tribunal Federal. Marcela faleceu no último dia 1º de agosto.

Na ocasião da reportagem, o ginecologista e obstetra Ricardo Barini foi o único especialista a declarar que não se tratava de anencefalia. “Eu disse que só havia uma possibilidade: se a criança estava sobrevivendo, não era anencefalia. Exames de ressonância magnética já mostravam mais estruturas cerebrais, o que indicava meracrania, uma variante raríssima dos defeitos de fechamento do tubo neural, mas que também não permite sobrevida longa”.

Na opinião de Barini, Marcela sobreviveu por 18 meses devido ao aparato montado ao seu redor, como respirador doméstico e alimentação por sonda. “Havia um interesse político em mantê-la viva e a família, cujo desejo de que isto ocorresse é incontestável, foi levada a crer na vitória. Inclusive, questionei por que o grupo que assistia à criança não a submetia a uma avaliação de experts, a fim de comprovar a anencefalia e eliminar qualquer dúvida”.

Entretanto, a própria Justiça considerou a hipótese de que o caso denunciava um engano da medicina. Em junho de 2007, o Ministério Público de São Paulo, baseado no fato de que Marcela sobrevivia sem cérebro havia sete meses, convocou Ricardo Barini a incluir novas justificativas a um pedido de autorização para um aborto na Unicamp. “A criança tinha o triplo da quantidade de cromossomos, doença chamada de triploidia, que inviabiliza a sobrevida. Era um problema genético e não neurológico”.

Ainda assim, o médico precisou registrar nos autos a sua declaração sobre o caso de Marcela, acrescentando que a desconsideração de estruturas cerebrais encontradas nos exames de ressonância magnética configurava um erro de diagnóstico. “Agora, por ocasião das discussões no STF, uma junta médica decidiu analisar o caso e concordou com meu diagnóstico de um ano atrás: não era anencefalia e sim meracrania”.

PARA NÃO CONFUNDIR

Na expectativa de que a interrupção da gravidez na encefalia seja aprovada pelo Supremo Tribunal Federal, Ricardo Barini lembra que várias outras situações clínicas inviabilizam a sobrevida dos bebês – e que, por semelhança, mereceriam igual parecer por parte dos juízes. No entanto, o especialista receia que a inclusão deste viés confunda o debate. “Como a solicitação ao Supremo é para anencefalia, é melhor, antes, esclarecer este ponto”.

Dirigindo-se aos leigos, entre os quais se incluem os juristas, o médico explica que o sistema nervoso central é formado a partir de um tubo, constituído por um folheto que se dobra em si. “Há uma fusão na altura da metade das costas, que depois de completa, como um zíper que corre para baixo e outro que corre para cima. Se o zíper não fecha para baixo, temos a espinha bífida ou miolomelingocele; se não fecha para cima, a anencefalia, ou a craniorraquisquise, mais grave, já que o cérebro e toda a coluna ficam expostos”.

Barini observa que no caso de Marcela, a meracrania, há um fechamento normal da parte inferior, enquanto que a parte de cima, mesmo sem fechamento ósseo, apresenta uma membrana cobrindo o tecido nervoso. “Esta cobertura oferece certa proteção, preservando parte do mesencéfalo, implicando em um pouco mais de sobrevida. Já na anencefalia, inexiste esta membrana e a sobrevida é inviabilizada pela exposição dos tecidos cerebrais ao ar ambiente. Em nosso serviço na Unicamp, registramos o máximo de 72 horas”.

Ocorre ainda a hidranencefalia, quando a cabeça é formada, mas o cérebro acaba trocado por água, devido a alguma obstrução circulatória precoce que provoca a destruição do tecido cerebral. “Tivemos o caso de uma senhora que estava requisitando autorização judicial para interrupção da gravidez. Uma instituição entrou com recurso contestando o diagnóstico e, no período de idas e vindas, a criança acabou evoluindo para óbito, ficando decidida a questão sem nosso envolvimento mais direto”.

OUTRAS SITUAÇÕES

Para ressaltar como a questão é polêmica, o médico da Unicamp recorda que este caso de hidranencefalia chegou a ser contestado na Justiça por ter sido confundido com a hidrocefalia – anomalia completamente diferente, menos grave, mas com sobrevida com limitações neurológicas importantes. “Se ainda está difícil entender a anencefalia e suas variantes, não vale a pena estender a discussão para outras situações. É melhor esperar passar o furacão”.

Entretanto, Ricardo Barini menciona outras doenças renais incompatíveis com a vida extra-uterina, como a de bebês gerados sem rins e que não podem ser salvos, exceto por um transplante imediato, o que não existe disponível para recém-nascidos. Outro exemplo é a doença multicística renal, em que os rins são substituídos por pequenos cistos de líquido, sem função excretora; não produzem líquido amniótico, o que provoca a compressão do tórax e a hipoplasia pulmonar. Há outros defeitos muito graves, como alguns problemas cardíacos e defeitos do fechamento da parede do tórax e do abdômen, em que toda esta parte do corpo fica exposta, sem possibilidade de correção cirúrgica, esclarece o Dr. Ricardo Barini.

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